ABRUPTO

3.10.14


SEMPRE A ATIRAR PARA O LADO A VER SE A GENTE SE DISTRAI



O problema do “caso Tecnoforma” para o Primeiro-ministro não resulta de se ter “explicado tarde”. Resulta do “caso Tecnoforma”, em primeiro, segundo, décimo, milionésimo lugar. E resulta das suas "explicações" que não explicam nada, bem pelo contrário. Quem está a desviar o mal-estar à volta de Passos Coelho apenas para o atraso das suas explicações, está a ver se cola um erro instrumental, naquilo que pode ser uma enorme complicação substancial.
Já escrevi várias vezes e em devido tempo, muito antes destes eventos, sobre empresas como a Tecnoforma e a sua “peculiar” relação com o poder político. Por que razão nascem ou contratam políticos, muitas vezes sem qualquer qualificação, e como proliferam e ganham dinheiro encostadas a decisões políticas e a informação privilegiada. Do lado de cá está uma “empresa”, do lado de lá está sempre um amigo no sítio certo. Pelo meio, estão os homens que “abrem todas as portas”.

Sabe-se agora, sem surpresa, que a Tecnoforma criou e financiou com verbas consideráveis (que é o que significa “ser o único mecenas”) uma ONG chamada Centro Português para a Cooperação na qual Passos Coelho “trabalhava” de graça. É suposto que uma ONG tenha como objectivo qualquer coisa de bom e nobre e útil para quem precisa, neste caso os PALOPs. É por isso que tem um regime de favor no plano fiscal, na contabilidade, no governance, com muito poucas regras e sem o controlo que teria uma empresa. Mas o Centro Português para a Cooperação, obra do “mecenato” da Tecnoforma, tinha um objectivo peculiar: arranjar projectos para financiar a Tecnoforma, acedendo a fundos e recursos indisponíveis para uma empresa, mas disponíveis para uma ONG. Ou seja, era uma falsa ONG.

 Pode ser que até tenha sido tudo legal (duvido), mas tudo isto é uma fraude e um abuso. E a natureza deste tipo de empresas e deste tipo de actividades só é acessível a quem conhece os meandros do poder político e quem sabe onde ir buscar os fundos desviando-os do seu objectivo filantrópico ou útil para a nação. Assim, foram úteis mas foi para outra coisa. 

Quem se mete ou é parte activa neste tipo de actividades, fica sempre manchado, até porque sabe muito bem o que fez e com quem fez. Não me admira por isso que a memória emperre.

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27.9.14


PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: a "salsicha educativa".

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23.9.14


O PREÇO QUE VAMOS PAGAR 

Ah! O preço final do “novo banco”, eis a variável de que se fala pouco e que está por debaixo do tapete das decisões mais recentes, e que tem que ter o máximo escrutínio público visto que é o “nosso” dinheiro que está em causa. Não há um cêntimo no Fundo de Resolução que não seja público, quer o que o governo lá meteu, quer o que os bancos foram obrigados a pagar para a sua existência, visto que se trata de um imposto, logo é “nosso”. Ora, como também os meus leitores sabem, visto que aqui já foi escrito, “tempo” e dinheiro não coincidem. Bento queria mais tempo, para vender um banco “estabilizado”, logo mais caro. O governo parece prescindir de um valor final maior, na hipótese de tal ser conseguido num banco ferido, a favor de resolver depressa a questão, mesmo que mais barato. A questão é que se é assim, tal posição é também a de quem o queira comprar, que pode pagar menos, absorver o “novo banco” num banco que já seja bom a sério e acabar com um poderoso concorrente. Em cima da mesa, já não está o interesse em “salvar” o banco, mas o interesse em fazer um bom negócio com os seus restos. 

 E O PREÇO INVISÍVEL 

Mas não é o preço apenas a que devemos estar atento, porque, habituados a estar sempre a ser enganados, temos que olhar para a letra pequenina dos contratos. Aquela para que ninguém prestou atenção, por exemplo, na EDP antes de andar a elogiar encomiasticamente a sua privatização.

 É que o universo BES está pejado de ilegalidades, umas evidentes outras prováveis, e aqui refiro-me às que acompanharam o modo como se dividiu o “bom banco” do “mau banco”. Por exemplo, o que é que aconteceu aos bens dos Espíritos Santo e dos outros “donos”, foram nacionalizados, expropriados, confiscados ou quê? Pensam que quem ficou prejudicado com a decisão, pequeno ou grande, vai aceitar sem litigar? Pensam que Ricardo Salgado está lá num hotel de luxo a fazer o quê com os papéis? De quem é esta ou aquela parte do património do GES, o que é que se passa com Angola, como é que as decisões portuguesas se vão compatibilizar com as decisões dos tribunais luxemburgueses, ou americanos, ou do Panamá? Vai ser um maná para os advogados “de confiança”, e uma coisa eu tenho a certeza: quem comprar o “novo banco” ou o faz barato e arca com a carga da litigância, ou se o comprar mais caro, vai exigir garantias de que na volta, não o possa ou perder, ou ter que entregar algumas coisas “boas” que vieram na divisão. Quem é que pode dar essas garantias? O governo. Com que dinheiro? O nosso.

 Talvez por tudo isto se exija o maior cuidado com o que as agências de comunicação nos vão colocar no prato todos os dias, ou na benemérita imprensa económica, ou nas “informações” dos comentadores.

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BASTA TER BOM SENSO 

 Não dispondo da informação privilegiada que serve para os recados intencionais que são dados aos media, eu esforço-me por praticar o bom senso, o bem que cartesianamente está mais distribuído. E por isso, para os meus leitores, o BES e o GES nunca foram o bom e o mau, e o BES acabaria por soçobrar ao GES, como era de bom senso dizer, em vez de se papaguear a cartilha governamental. E por isso, para os meus leitores, era apenas uma questão de tempo até que a condução caótica do processo do “novo banco” desse no que deu, visto que todas as semanas aparecia um “tempo” de vida diferente, de dois anos a três meses. E por isso, os meus leitores, ficam também já prevenidos que seria bom saber como funciona o dono formal do banco, o Fundo de Resolução, até porque nele estão representados quer os competidores do “novo banco” (que não querem concorrência) e os eventuais compradores do que sobra de bom, ao preço mais baixo possível.

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TALVEZ AGORA VITOR BENTO PERCEBA COM QUEM SE METEU 

Vítor Bento tem escrito sobre o problema da ética nos negócios e na política. Por isso, é uma daquelas partidas que a história prega a todos, poder ouvir palavras como as que Paulo Portas proferiu publicamente numa reunião centrista, em que Vítor Bento passou de bestial a besta. Portas é um dos principais responsáveis, pela sua posição no governo, da escolha de Vítor Bento, visto que todo o processo do BES é conduzido pelo governo utilizando como instrumento o Banco de Portugal. Portas ouviu com certeza as críticas da oposição de que Bento não tinha experiência bancária, de que a escolha tinha sido política, etc. Ele, como toda a muralha de personalidades do governo que se pronunciaram, bem como os comentadores próximos do poder, reagiram indignados a estas acusações incensando Bento até aos limites, como a excepcional escolha para “salvar” o banco. Bento devia ter compreendido que não era tanto ele próprio, nem o resto da sua equipa que eram elogiados, mas a sageza do governo e do seu instrumento o Banco de Portugal, na escolha.

Agora, Vítor Bento teve que ouvir as palavras de Portas, com a mesma repulsa moral que elas suscitam em gente bem formada. Portas fala como se nada tivesse a ver, assim como o governo que faz parte, na escolha de Vítor Bento, uma escolha errada porque não era um “banqueiro” e não “percebia” de banca, não era “profissional” do ofício para que foi escolhido… pelo governo. E depois dá-lhe uma lição moral, a mesma que Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa lhe deram, e que segundo este último, “toda a gente” partilha, do PSD de Alcobaça aos seus companheiros de praia:

“Os bancos gerem-se por profissionais e por gente que tenha espírito de missão e que, em qualquer circunstância, perceba que o interesse nacional é superior a qualquer interesse pessoal.” 

Bento portou-se mal ao demitir-se, devia continuar no banco como responsável de fachada, enquanto a cadeia de comando do governo ao Banco de Portugal decidia tudo em nome dele. Ou seja, Bento não aceitou ser um fantoche e isso só lhe fica bem nestes tempos de dissolução moral. Vem agora um tecnocrata mais dúctil.

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6.9.14


CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA 

(As duas primeiras  aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui, a sexta aqui.)



Meu confuso Pan lá pelos antípodas 

Dizes que foste à cidade? Cunnamulla? Mas isso é lá uma cidade? Fui à Wikipedia ver, e dá 1200 habitantes. Está-se mesmo a ver, uma multidão, engarrafamentos, semáforos, rush hour! Ah! meu bom amigo, estás a ficar “local”, um pouco avariado da cabeça, ou então mais certo do que todos nós. 

Quando voltares a Colónia, vai-te parecer um daqueles mundos apocalípticos da ficção científica, pós-nucleares, com mutantes e água a pingar dos neons escalavrados e bares em que se bebem coisas azuis fosforescentes e há fêmeas com vinte mamas. Por favor, faz como os mergulhadores para subir, faz um tirocínio de quinze dias de cidade em cidade, podes começar na Cunnamulla, mas depois vai-lhe acrescentando dez mil, depois cem mil, depois um milhão de habitantes, para te habituares à civilização. Temo que se vieres de férias natalícias para a tua Renânia, como me dizes que vens, entres por um restaurante dentro e te sentes no chão, porque já não sabes o que é uma cadeira.  Cunnamulla? É quente, não chove, mas há inundações e tem uma fonte monumental? Give me a break! Desculpa este meu mau feitio contra Cunnamulla que não tem culpa nenhuma e até se calhar tem uma intensa vida social. 

Eu suspeito que deve haver um equilíbrio cósmico. Tu vens para cá e nós vamos para lá. A gente também já não sabe o que é uma cadeira, uma mesa, um garfo e uma faca. Empurra os tuk-tuk. Grunhe ao telefone. Esbraceja no SMS. Vocifera no anonimato dos comentários. Vive no Facebook. Está tudo a ficar muito bruto. Por cá também vamos a caminho de uma Cunnamulla qualquer. 

Queres notícias do meu país? Voltou o futebol, deixou de haver notícias. Vivemos no reino das platitudes. O Ronaldo parece que deu uma entrevista à TVI e o Marcelo Rebelo de Sousa, - recordas-te, o que nadou no Tejo, o que schwamm in der Scheiße, como dizias antes de seres meio aborígene, - elogiou a sua imensa capacidade de sabedoria e profundeza. O homem parece que quer a Irina, mas só para já. Depois vai querer outra que não é a Irina. Sábio. O homem parece que evitou criticar os patrões. Um cúmulo de sensatez. E por aí adiante, só sageza. Vinte valores. 

Aliás o mesmo pode ser dito do discurso do meu Primeiro-ministro no Pontal , que já não é no Pontal, outra colecção de platitudes gigantescas. Mas foi lá o mundo todo, televisões, rádios e grande cópia de jornalistas e em vez de dizerem, desculpem meus leitores, mas o homem não disse nada, encheram o ar desse mesmo nada. A gente apanha embolias só de respirar este vácuo, mas há sempre alguém que vai lá erigir um amuo qualquer em política. Na oposição, é o mesmo, nada, no país em que se homenageia os mortos pagando-lhes as quotas no partido. Vai haver muito walking dead socialista. Na verdade, já havia antes, alguns até mandavam, nós é que não tínhamos reparado. 

Depois há a intensa produção de paradoxos, que passam por ser o mais linear dos raciocínios. O governo e o Banco de Portugal parecem que querem o BES “bom” vendido o mais depressa possível. Mas para vender bem o BES “bom” este tem que ser “estabilizado”, ou seja, demora tempo. Queremos vender rápido, mas rápido só pode ser “instável”, logo mais barato. No intervalo, a indústria da “estabilidade”, ou seja da imagem e da marca, lá vai ganhando dinheiro com transformar o banco numa borboleta, anúncios, cartazes, fachadas, que nisso somos rápidos e bons a encomendar e há uma verdadeira multidão de “criativos” para responder. Mas se soubessem mais de lepidópteros ou lessem o Nabokov, saberiam que o “novo banco” ficaria bem mais servido com uma larva ou lagarta. Primeiro, porque comem muito, coisa que fica sempre bem a um banco mesmo “bom”, e, quando fosse vendido no esplendor rápido de borboleta então poderia ser que os “contribuintes”, - palavra que deveria ter um alarme acoplado visto que quando o governo a usa ou trata-se de impostos, despedimentos, ou cortes, - ficassem ressarcidos. 

Vê lá este vocabulário dos nossos dias “ressarcidos”… Estás ver como vamos a caminho de Cunnamulla? De foguetão. Meu caro Pan, não há aí um aborígene feiticeiro que me arranje uma Epifania qualquer para eu transformar isto tudo numa experiência religiosa profunda e ficar parvo a falar para um arbusto, em vez de ter esta terrível sensação de ficar cada vez mais perto de Cunnamulla? 

E tu não te percas nessa grande cidade australiana. Bom, o nome não é mau. Como é que se chamarão os habitantes? 

 Um abraço do teu amigo longínquo

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1.9.14



ÍNDICE DO SITUACIONISMO: COMO É QUE A NOVILÍNGUA SE ESTABELECE

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

 Diz o Primeiro-ministro: 
"Parece-me que a meta que tínhamos definido de 4% para este ano é alcançável, precisa de alguns ajustamentos dentro do nosso orçamento na medida em que há algumas rubricas que têm um peso maior do que tínhamos previsto em consequência de decisões que não fomos nós que tomamos. " 
 Repare-se no sublinhado “em consequência de decisões que não fomos nós que tomamos ", a frase em língua orwelliana. Quer o Primeiro-ministro dizer, e, quase toda a comunicação social que o segue na conjugação do sujeito com o verbo, decisões que (“nós”, o governo) não tomou, mas sim o Tribunal Constitucional. Não, meus amigos é exactamente o contrário: “em consequência de decisões que nós tomamos”, porque as opções por medidas de duvidosa constitucionalidade, para dizer o menos, ou inconstitucionais, foram tomadas pelo governo e por mais ninguém. Nos últimos três anos, o sujeito primeiro das medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional foi sempre o governo, o autor do chumbo foi o Tribunal. Quando chega o chumbo, ergue-se um clamor a dizer que a culpa é sempre do Tribunal, e nunca de quem tem vindo nos últimos anos a somar medidas sobre medidas ilegais à luz da Constituição. E não é por falta de aviso prévio. 

Esta substituição do sujeito da “culpa”, com que a comunicação social colabora sem pensar, é de novo mais um dos casos de situacionismo, de submissão acrítica à linguagem do poder.

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AVENTUREIRISMO LEGAL

 O caso do BES e do GES é um maná para os advogados especializados neste tipo de litigância, aliás os mesmos que são especialistas na blindagem de contratos, os mesmos que fizeram as contrapartidas, os mesmos que negociaram do lado da banca e do lado do governo. Para meia dúzia deles, porque é um círculo muito fechado, o caso BES/GES vai ser um presente de ouro.

Há muito aventureirismo legal (melhor ilegal) em todo o processo e tantas zonas vermelhas e cinzentas, tanta coisa feita em cima do joelho, e muita mais de legalidade mais que duvidosa, que todos, pequenos e grandes, do lado “bom” e do lado “mau”, têm vantagem em ir a tribunal, mesmo com uma justiça lenta como a nossa. E é evidente que a expectativa de litígios sobre litígios vai embaratecer ainda mais o lado “bom”, visto que ninguém se arrisca a comprar sem ter a certeza de que não fica com um bem enrodilhado por dezenas de anos em processos judiciais. A não ser que o governo se atravesse com garantias e dinheiro, o que já está a fazer e ainda vai fazer muito mais. É só esperar um pouco.

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29.8.14


(versão da )
PORQUE É QUE NÃO VALE MUITO A PENA TER ESPERANÇA …


... como no Inferno quando se entra pela porta maldita e se deixa a dita esperança à entrada. Agosto é um bom mês para percebermos tudo. Milhares e milhares de jovens que não lêem um livro, passam o mês em festivais no meio do lixo, do pó, da cerveja e dos charros. Milhares e milhares de adultos vão meter o corpo na água e na areia, sem verdadeira alegria nem descanso. Outros muitos milhares de jovens e adultos nem isto podem fazer porque não tem dinheiro. No interior, já que não há correios, nem centros médicos, nem tribunais, proliferam as capitais, da chanfana, do caracol, do marisco, do bacalhau, dos enchidos, da açorda, as "feiras medievais" de chave na mão, as feiras de tudo e mais alguma coisa desde que não sejam muito sofisticadas. Não é uma Feira da Ciência, nem Silicon Valley. 

As televisões, RTP, SIC e TVI “descentralizam-se” e fazem arraiais com umas estrelas pimba aos saltos no palco, mais umas “bailarinas”, nem sequer para um grande público. Incêndios este ano há pouco, pelo que não há imagens fortes, ficamos pelo balde de água. Crimes violentos “aterrorizam” umas aldeias de nomes entre o ridículo e o muito antigo, que os jornalistas que apresentam telejornais com tudo isto gostam de repetir mil vezes. Felizmente que já começa outra vez a haver futebol, cada vez mais cedo. O governo, com excepção das finanças e dos cortes contra os do costume, não governa, mas isso é o habitual. 

A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social. No tempo de Salazar falava-se do embrutecimento dos três f: futebol, Fátima e fado. Se houvesse Internet acrescentar-se-ia o Facebook como o quarto f. Agora não se pode falar disso porque parece elitismo. Áreas decisivas do nosso quotidiano hoje não são sujeitas à crítica, porque se convencionou que em democracia não se critica o "povo".

Agosto é um grande revelador e um balde de água fria em cima da cabeça para aparecer na televisão ou no You Tube. Participar num rebanho, mesmo que por uma boa causa, podia pelo menos despertar alguma coisa. Nem isso, passará a moda  e esquecer-se-á a doença. Pode ser que para o ano a moda  seja meter a cabeça numa fossa séptica, a favor da cura do Ebola.

Assim não vamos a lado nenhum. Como muito bem sabem os que não querem que vamos a qualquer lado.

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28.8.14



NA MORTE DE EMÍDIO RANGEL


NA TSF 

Sempre que Emídio Rangel se apanhava no lugar certo e no momento certo – e quer na TSF, quer na SIC esse lugar e momento certo foi o fim do monopólio de estado sobre os media audiovisuais – ele mostrou as suas excepcionais qualidades de inovador, arrastando atrás de si equipas a quem ele deu uma forte identidade, agressividade e competitividade. Na TSF, fê-lo num momento de transição que transformou uma rádio quase pirata na referência noticiosa, no meio de uma enorme turbulência, afrontando o poder político que estava pouco habituado a ser tratado sem o “respeito” institucional que vinha da antiga Emissora Nacional e apenas se “avermelhara” no PREC. A retaliação era feita de muitas formas inclusive pelo controlo do sinal da emissão, que ultrapassava muitas vezes o permitido, mas umas vezes fazia-se de conta e outras lá apareciam os inspectores atrás dos “cristais”. Recordo-me de muitas vezes Rangel dizer quando havia uma matéria mais quente, “lá vêm os homens ver os cristais”. 

Hoje, esta TSF já não existe em grande parte. Está cheia de programas, patrocínios e anúncios institucionais e em muitas matérias segue uma linha editorial muito próxima do governo e da ideologia do “ajustamento” do que qualquer canal noticioso televisivo, seja a SICN, seja a TVI24. A crise, as atribulações da sua propriedade, o afastamento de jornalistas seniores, pesaram muito na sua perda de vitalidade e inovação. Os noticiários tornaram-se pouco acutilantes em matérias nacionais e as debilidades de redacção são evidentes. É verdade que Rangel que a fez, também ajudou a desfazê-la, numa fase mais complicada do seu percurso profissional, mas nem por isso os seus méritos de conjunto são menores. 

NA SIC 

Na televisão, Rangel mostrou a mesma capacidade “revolucionária”. Sem Emídio Rangel a criação de uma televisão privada em Portugal diferente da RTP, com a renovação que trouxe aos conteúdos e às formas, com as suas qualidades e os seus defeitos, demoraria muitos anos a dar-se, se se desse. Na SIC, Rangel mudou quase tudo, os programas de informação, os de entretenimento, os noticiários. Também na SIC, como na TSF, mostrou a sua capacidade de criar equipas que lhe eram pessoalmente dedicadas e a quem ele dava a “camisola” de uma causa. Foi buscar à RTP não só aqueles que eram mais conhecidos, mas muitos que eram fundamentalmente talentosos e a quem a agilidade e a liberdade da SIC deram a possibilidade de mostrar o que valiam. Ao mesmo tempo que começava a “fazer” a SIC, Rangel estudava tudo o que podia e encontrava sobre televisão, não se limitava a inventar do nada. Ouvia tudo e todos e se encontrasse boas ideias, permitia a sua realização, promovendo os melhores, mesmo que sem nome já firmado.

Mas, com o tempo, a televisão que fazia era cada vez mais cara e começava a não resistir à competição com outro homem que “fez” a televisão em Portugal, José Eduardo Moniz. O Big Brother foi a causa próxima, mas já havia na televisão privada um curso subterrâneo dos acontecimentos que iria precipitar a queda da SIC do lugar cimeiro e as tensões que levariam ao afastamento de Rangel. Rangel tinha mau feitio e, nas relações pessoais, ou as coisas corriam bem ou, quando corriam mal, corriam muito mal. E Rangel deixou a SIC para uma experiência infeliz na RTP, com a SIC a maltratá-lo a ele e ele a maltratar a SIC. 

Quando deixou a RTP, Rangel um dos homens que mais sabia de rádio e televisão em Portugal, ficou efectivamente desempregado, e com uma colecção de inimizades considerável que o impediam de ter alguma esperança de regressar ao escasso panorama de estações televisivas. Ele sabia-o bem. Lançou-se nalguns projectos que não tiveram andamento nem sucesso e coleccionou algumas amarguras no fim da vida. Mas as coisas são como são, e nada disso retira o enorme papel que teve na comunicação social pós-25 de Abril. 

 O QUE DEVO A EMÍDIO RANGEL 

Devo muito a Emídio Rangel, um homem com que sempre tive muito boas relações e apreço mútuo. Nunca aceitei o “esquecimento” a que foi votado na SIC, – por exemplo, o seu retrato não se encontrava nas paredes da estação, - e sempre que tive oportunidade referi o seu papel na própria SIC, quer no meu programa Ponto Contraponto, quer quando do aniversário do Flashback, agora com o nome de Quadratura do Círculo. De todas as vezes que isto acontecia, Rangel falava-me ou escrevia-me “agradecendo”, coisa que sempre lhe disse não ter qualquer sentido, a não ser pelo facto de haver silêncio a mais à sua volta.

Tive o privilégio de fazer parte de dois dos seus programas mais inovadores, o Flashback na TSF e o Terça à Noite na SIC. Rangel fez parte do painel inicial do Flashback, e recordo-me de ele muitas vezes dizer, quando havia críticas de que “estávamos a falar ao mesmo tempo” (eu, o José Magalhães, o Vasco Pulido Valente, o Nogueira de Brito e depois o Miguel Sousa Tavares, na fase inicial), “que nunca vira ninguém mudar de canal nesses momentos”. Ele queria debates a sério, mesmo que muitas vezes caóticos, mas cuja empatia, fosse simpatia ou antipatia, prendia quem os ouvia. Numa altura em que os debates políticos contavam com a participação pomposa e ortodoxa de delegados partidários, o Flashback fazia toda a diferença.

Há, por último, um aspecto mais invisível da acção de Rangel, aqui junto com Balsemão, e os actuais responsáveis da SICN, de resistência às pressões quotidianas, repito quotidianas, do poder político, para domar o tipo de informação e debates que ele, Rangel, introduziu na comunicação social portuguesa. Este é um aspecto menos conhecido, mas central na nossa liberdade. E foi o que Rangel ajudou a fazer: a nossa liberdade.

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17.8.14


CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA

(As duas primeiras aqui, a terceira aquia quarta aqui, a quinta aqui.)


Caro Pan, portador do maior nome que conheço, onde cabe tudo

Foste mordido pelas formigas dos antípodas porque lhes perturbaste um carreiro? Deixa lá, aqui estamos cheios de formigueiros e de formigas, só que tem outro nome. Mas que mordem, mordem.

O meu país está doente e, como me custa dizer-te isto, meu bom Ludwig, que procuras boas novas como o ouro que te escapa nesses rios secos de Queensland. Quem é que vai para uma terra chamada de Sturt Stony Desert? Eu conheço a resposta clássica: cães malucos e ingleses, mad dogs and englishmen. Mas tu és alemão, gostas da prussiana ordem durante meia semana e de nevoeiro místico levantando-se das florestas na outra metade. Não foste fadado para esses desertos, não ser pelo “trabalho”, pela “obrigação”, pela “disciplina”. Deixa lá mesmo assim, derretendo no deserto a revirar pedras, estás melhor do que eu.

O meu país está doente. O que se fez no meu país foi uma guerra moral aos de baixo, aos mais fracos e que não tem defesa, aos que são velhos e não tem mais saída, aos que tinham pouco e aos que ainda tinham alguma coisa, tratando-os de ricos, e essa guerra moral passou por lhes incutir uma culpa que não tinham e assim impedi-los de responder ao ataque que lhes foi feito. Esta guerra moral teve sucesso, até porque as pessoas nesta era de psicologismo, absorvem culpa como uma esponja. São culpados pelos desmandos dos filhos, são culpados por não terem emprego, são culpados por serem velhos, são culpados por terem casado com “aquela” pessoa, são culpados por se terem divorciado, são culpados porque tem pouco dinheiro e, num país de “sucesso”, isso é uma fraqueza, são culpados por “viverem acima das suas posses”. 

Atiram-lhes culpa misturada com o cola-tudo da crise, e ao mesmo tempo dão-lhes uma gigantesca martelada na vida para ficarem meio tontos, sem perceberem o que lhes aconteceu. Mudam-lhes a vida para muito pior, de um mês para o outro, de repente, sem aviso, recebiam 1000 e passam a receber 700, recebiam 700 passam a receber 650, tinham um apoio para comprar óculos, para estudar, para viver, para comprar medicamentos, para descansarem na velhice, e tudo acaba. Confiança, não dizem eles. A confiança acabou com a crise.

Os cínicos que nos governam, amorais até á sua essência, que aprendem nas carreiras partidárias uma espécie de realpolitik de bar da moda, acham que dizer isto é miserabilismo. Têm uma aptidão natural, e uma ainda maior desfaçatez, em encontrar nos outros, os bodes expiatórios que justifiquem a sua peculiar mistura de ignorância do país, incompetência e ideologia colada a cuspo, ressentimento e subserviência com os poderosos, capacidade de engolirem tudo, aquilo a que os portugueses chamam falta de vergonha.

Meu bom germano Ludwig, já foi o tempo em que nós mediterrâneos de proximidade, tínhamos como nossa a dicotomia da honra e da vergonha. Vergonha? O que é isso. Já para não falar da honra. 

A ironia disto tudo é que sobrepor a moral à hierarquia social deu muito torto. Para acusar os de baixo de se portarem mal com o seu “consumismo” de plasmas e sofás, era suposto os de cima, os modelos da livre “economia”, darem o exemplo. Ora, os ricos não deram o exemplo, os convidados de honra dos seminários pagos a peso de ouro da imprensa económica, os modelos intangíveis de muitos blogues que passam por ser liberais e que se babavam com as virtudes do “velho dinheiro”, aqueles que defenderam com unhas e dentes a senhora que “brincava aos pobrezinhos” na Comporta, esses vêem agora a “reputada” família Espírito Santo, modelo do empreendorismo, do “velho dinheiro”, que andava de braço dado com o Dr. Salazar e os reis caídos de Cascais, tratada como criminosa. E também vão lá deitar a sua pedra, porque é de sua natureza bater nos que estão caídos. 

No outro dia, um jornalista dizia na televisão que a prisão de Ricardo Salgado por um dia mostrava como o país estava a “mudar”. A palavrinha “mudar” é mágica, tanto mais que acaba por deixar sempre uma impressão positiva. Ele queria dizer que o “antigo regime”, o Portugal de antes de 2011, o “regime”, o “sistema”, o “poder corporativo”, estava a desaparecer por uma qualquer destruição criadora. É uma linguagem muito comum nos blogues, no Twitter e no Facebook pró-governamental. É um linguagem de que o poder gosta, porque legitima a “crise”, traz virtudes á “crise”, torna-a num instrumento daquela mesma guerra moral que tão importante foi para tornar impotente o protesto. 

Engano. Não mudamos nada. Estamos é mais pobres, e por isso, num sentido perverso mais iguais, mesmo quando mais desiguais. Estamos cada vez mais iguais no sentido em que os de cima já não tem o pedestal da reputação, do “velho dinheiro”, do bom nome “familiar”, e os que estão a subir para o mesmo lugar hierárquico já não querem saber disso para nada até porque nesses bens simbólicos não podem competir. Estamos no reino dos middle men. A mediocridade dos que nos mandam, mais do que nos governam, é tal que tende a igualizar. Por baixo, claro. Quem anda como peixe na água são os facilitadores, os intermediários, os confiáveis, os que abrem todas as portas. São como um fluido, passam por todas as frestas. Como as formigas que te apoquentam. 

Estás ver no que isto deu? Estas cartas parecem o Muro das Lamentações. Mas não é queixa, é fúria. Custa viver no meio disto tudo, no meio desta doença social, desta, - e uso a palavra complicada, a a palavra gasta, a palavra que se diz sempre, a palavra lugar-comum, - decadência. Abstieg, Niedergang, não sei qual a melhor palavra na tua excelente língua para estas coisas catastróficas. 

 Um abraço do teu amigo

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9.8.14


CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA

(As duas primeiras aqui, a terceira aqui, a quarta aqui.)


Meu caro Ludwig Pan, alemão perdido nos antípodas

Ouro tu ainda não descobriste, ouro dos tolos tenho eu por cá muito. Não fazes ideia de como o meu triste país está mergulhado numa nuvem de mentiras tão descaradas e tão evidentes que parece que não sabemos, ou não podemos, respirar outra coisa que não este engano continuado. Tinhas tu melhor informação sobre o que se estava a passar no banco do Ronaldo e da D. Inércia do que milhões de portugueses, consistentemente, deliberadamente, ligeiramente, irresponsavelmente, e tudo o mais que queiras acrescentar, enganados.

Este teu amigo pareceu profeta nos últimos meses dizendo que isto do “bom“ banco e do “mau” grupo era uma patetice perigosa, mas não são dotes de profecia nem argúcia analítica, é puro bom senso e desconfiança natural com os nossos poderosos, tão habituados na arte de mentir e enganar, que temos sempre de estar de pé atrás. Escrevi-te na minha última carta que “O “banco” está bem, embora as “empresas” dos Espírito Santo essas sim é que estão muito mal. Não sei muito bem onde colocam a muralha de aço, mas uma coisa parece “não contaminar” a outra. Eles são os mesmos, e presumo que sim, donos do mesmo, ou parcialmente, numa grande parte, donos do mesmo. Mas o “mesmo” tem uma parte que está má e outra que está boa, mas não comunicam.” Tretas, claro.

Os jornalistas de economia e outros faziam ponto de honra de nos dizer enfaticamente, “olhem que o banco é diferente do grupo”, o banco é “bom” o grupo é “mau”. O Presidente, o Primeiro-Ministro, a Ministra das Finanças, o Governador do Banco de Portugal, não perdiam uma oportunidade para repetir. Mas era falso, o grupo estava mal e o banco estava mal. Alguém assume a responsabilidade? Não, eram apenas os Espírito Santos que eram habilidosos e “fraudulentos” e a parafernália de reguladores, auditores, consultores, inspectores, pagos a preço de ouro, - o tal ouro que tu não encontras,- não viam nada, nem “podiam” ver alguma coisa, o argumento de Constâncio para o BPN. Até ontem. 

Na verdade, o banco faliu e foi nacionalizado, sendo que nenhuma destas palavras pode ser utilizada porque o poder as proíbe. De há muito que só uma tribo de resistentes usa as palavras que verdadeiramente descrevem as coisas e não a linguagem dúplice do poder. O novo mantra, é agora o “não se gasta o dinheiro dos contribuintes”, o “mau banco” foi para um lado, o “bom” e “novo” está aí para continuar…a melhor tradição do outro que foi bom e agora é mau. A máquina de propaganda do meu governo, esqueceu-se do que andou a dizer nas últimas semanas e agora repete mais um conjunto de mentiras “estruturadas”, como aqueles produtos que eram tóxicos. Orwell, que ambos tanto admiramos, teria aqui matéria para um tratado de doubletalk.

Tu e os teus aborígenes podem criar uma história de proveito e exemplo desta praga que caiu sobre o meu país. Contaste-me uma lenda sobre o urso que perdeu a cauda. Se bem me lembro, durante uma seca, um urso e um canguru procuraram água por todo o lado. Não havia. Até que resolveram subir o leito seco de um rio para ver se mais perto da nascente se conseguia água. Chegados lá, o urso resolveu enganar o canguru para ser ele a trabalhar a cavar um buraco, enquanto ele se fazia muito doente. Mal encontrou água, o canguru foi chamar o seu amigo urso, condoído com a sua doença, dizendo-lhe que afinal havia água. O urso perdeu logo a doença e atirou-se para dentro do buraco a beber, com a cauda espetada para fora. Enganado, o canguru pegou num boomerang, - afinal a história é australiana - , e cortou a cauda ao urso. A partir dessa data os ursos nativos ficaram sem cauda. 

Ora o urso enganador, aproveitador do trabalho alheio, dissimulador, muito “doente” da sua “bancarrota” aquosa, gerada pelos deuses alheios e primevos, queria “ajustar” o canguru. O canguru trabalhava a abrir o buraco e a encontrar água e o urso depois ia lá beber descansado. E o boomerang voou para lá vazio e voltou para cá com a cauda “ajustada”. Diz lá aos teus amigos que comem rãs, larvas, insectos, e uns bizarros marsupiais, que cá nós precisamos de uma grande provisão de boomerangs, porque há muitas caudas a sair dos buracos da água. Com a tua alemã capacidade de organização podias fazer aí uma pequena AutoEuropa para produzir boomerangs, chamas-lhes “paus curvos de adorno” e entra pela pauta alfandegária como “artesanato”. 

Como a balança comercial tem que ser equilibrada, o que é que poderei exportar para aí? Sol há aí em quantidade; praias também; vinho do Porto, a Austrália produz; móveis de Paços de Ferreira, talvez; refinados, não precisam… Talvez degredados, uma antiga importação australiana, agora em desuso no Commonwealth. Os Espírito Santos para brincarem aos pobrezinhos em Queensland. O nosso governo mais os seus altifalantes nos media, se encontrares por essa larga Austrália o Oitavo Círculo do Inferno, o mais apropriado e onde têm bons companheiros. 

Desculpa, meu bom Ludwig, que tanto fale das nossas desgraças, mas por cá todo o vento é mau e estamos soterrados em miasmas diversos que dariam um gigantesco catálogo. Ah! como seria boa a aurea mediocritas que talvez gozes aí! 

Um abraço do teu amigo português

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8.8.14


O NAVIO FANTASMA: COMO ISTO ESTÁ - OS MESMOS EM TODO O LADO 
(ENVIADO POR UM LEITOR)

Para além do "(des)governo do governo" descrito pelo leitor cujo mail foi transcrito, merecem neste caso atenção outros detalhes que, todos juntos, mostram a falta de cuidado, rigor e independência que um processo com a delicadeza e complexidade deste devia exigir. Veja-se, por exemplo, a presença da mesma empresa de auditoria, a PWC, na auditoria forense a ser feita pelo Banco de Portugal, no Conselho Fiscal do "Novo Banco" e, agora, na auditoria interna que a PT decidiu fazer aos negócios com o Grupo Espírito Santo. O mais elementar bom senso devia tornar evidente o conflito que o desempenho simultâneo de tais funções representa. Por muito independente e isenta que a PWC possa ser, por muitas "chinese walls" que se possam construir, este é um daqueles casos em que a suspeita de que possa haver transmissão de informações sensíveis e de que a condução das auditorias, bem como as medidas a tomar após a sua conclusão, sejam influenciadas por essa troca de informações é impossível de afastar (em especial nas auditorias ao GES e à PT a coincidência do auditor é absolutamente incompreensível). 

 Recordo, a este propósito, a referência que o Governador do Banco de Portugal fez na sua entrevista de ontem à necessidade de se melhorarem os modelos de governo e os procedimentos de governance. Não me parece que sejam os modelos que tenham que mudar, são as pessoas e a forma como as pessoas - as que decidem, mas também as outras - actuam que têm que mudar.

(C.G.)

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O NAVIO FANTASMA: COMO ISTO ESTÁ 
(ENVIADO POR UM LEITOR, JURISTA E FUNCIONÁRIO PÚBLICO)

(...)  sobre o assunto em epígrafe bastará afirmar que nunca vi diplomas legais publicados em Diário da República como os Decretos-Leis nºs 114-A e 114-B/2014, pois «ambos os dois» foram aprovados em reuniões do Conselho de Ministros que não existiram, nem podiam existir, em face do disposto expressa e taxativamente no artigo 184.º da Constituição.

Quanto ao Decreto-Lei n.º 114-A/2014, o Conselho de Ministros não pode ser composto apenas pelo Primeiro-Ministro, pelo Secretário de Estado Adjunto e do Orçamento (presume-se, com muito boa vontade, que em substituição da Ministro de Estado e das Finanças) e pelo Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.
Quanto ao Decreto-Lei n.º 114-B/2014, o Conselho de Ministros não pode ser composto apenas pelo Vice-Primeiro-Ministro e pela Ministro de Estado e das Finanças.

Nem falarei da mais que óbvia falta de quórum, nem do facto incontroverso das reuniões do Conselho de Ministros terem de ser presenciais (a alusão à teleconferência feita pelo Vice-Primeiro-Ministro é ridícula e espelha bem a desorientação do Governo nesta matéria – como, aliás, noutras), nem de que os comunicados do Conselho de Ministros têm de reflectir o que neles foi aprovado…
Resta relembrar dois ditados da sabedoria tradicional portuguesa:
«Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele»;
«Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo».

Por último, expresso a minha perplexidade:
1.º Como pode o «BES-Bom/Novo Banco» funcionar desde 4 de Agosto de 2014 com uma rede de mais de 700 balcões, mais de 20.000 trabalhadores, mas sem personalidade jurídica, sem firma comercial e sem um tostão de capital social, uma vez que se desconhece quais os seus Estatutos, se sabe que a denominação se encontra registada e é propriedade de outra entidade bancária, e que nem o (Des)Governo, nem o Banco de Portugal, nem a Associação Portuguesa de Bancos se entenderam ainda quanto à modalidade e ao montante da dita “recapitalização”;
2.º Como pode o «BES-Mau» funcionar desde 4 de Agosto de 2014 sem licença bancária, mas com contas e depósitos bancários (congelados) pertencentes aos administradores do BES/GES, seus cônjuges, pais, filhos, netos e outros que tenham o azar de ostentar o apelido “Espírito Santo”…

(F.F.)

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O NAVIO FANTASMA: O QUE É QUE FEZ FALIR O BES?

Três coisas: as malfeitorias dos Espírito Santos, a incompetência, ineficácia e procrastinação dos reguladores, em particular do Banco de Portugal,  e as hesitações do Governo. Cada uma de per si não fazia falir o banco, todas em conjunto tiveram o resultado que tiveram. As duas últimas razões, ligadas ao Banco de Portugal e ao Governo, são faces da mesma moeda, já que actuaram sem autonomia uma da outra. 

Onde uma procrastinou e revelou ligeireza e irresponsabilidade, a outra, enredada nos seus demónios ideológicos e propagandistas, ficou bloqueada até que era tarde de mais. A "solução" encontrada não é apenas tardia, gerou, pelo próprio atraso, um novo problema que está longe de estar resolvido. Se houve risco de "crise sistémica", a responsabilidade é mais do modo como foi adiado o problema do BES do que da situação "fraudulenta"  de partida, cujos primeiros sinais datam de há um ano.

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6.8.14


O NAVIO FANTASMA: O BANCO DE PORTUGAL AO SERVIÇO DA "NOVA POLÍTICA" DO GOVERNO

Com o entusiasmo do propagandista, Poiares Maduro referia-se à "solução" encontrada para o BES como um exemplo da "nova política" que o governo PSD-CDS tinha trazido à vida pública portuguesa. Ora, eu pensava que a "solução" tinha tido origem em decisões do Banco de Portugal, dotado de autonomia face ao governo, quando muito contando com o suporte do Ministério das Finanças para disponibilizar o tal dinheiro "que não é dos contribuintes" e que não é público, nem privado. 

Bem sei que considerações institucionais  não estão na moda, mas o facto do Banco de Portugal funcionar como um instrumento directo do governo, actuando como uma espécie de Ministério das Finanças para a banca, executando uma "política" governamental, põe em causa a autonomia da instituição. E a verdade é que esta crise só veio confirmar aquilo que se tinha visto nos últimos anos sob responsabilidade do Governador Carlos Costa, a proximidade excessiva e a colagem da actuação do Banco em relação ao governo, com sérias consequências para a autonomia pressuposta do banco central

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5.8.14


O MUNDO EM QUE ALGUNS PORTUGUESES VÃO PARA FÉRIAS 



 – Insatisfeitos, pessimistas e sem esperança. 96% acham que a situação económica do país é má. Repito, 96%, um número daqueles que se costumam chamar “albaneses”. Só que neste caso é bem português. Ou seja, quase todos os portugueses descrêem do “milagre” económico que, com cada menos convicção, Passos Coelho, Portas e Pires de Lima propagam por todo o lado. Não lêem a imprensa económica, não lêem os blogues governamentais, não lêem os comentadores do Observador, não acreditam no PSD e no CDS, mesmo quando deles fazem parte. Nenhum país da Europa tem estes resultados, nem a Grécia. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas, em nenhuma circunstância, mesmo quando o argumento a seu favor é da natureza dos argumentos que eles próprios costumam usar: facilitar com alguns meses de antecipação eleitoral, a atempada preparação do Orçamento. 

 – Muito preocupados com o futuro. São gente sábia e razoável e realista e pensam na sua maioria que o “pior está para vir”. Os europeus, pelo contrário, acham que o pior já passou. Os franceses, os cipriotas, os eslovenos, os italianos e os gregos também acham que o pior está para vir, mas acham menos do que os portugueses. Nenhum povo da Europa tem tanto medo do futuro como os portugueses. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 – Com medo de caírem na pobreza. Quase 40% dos portugueses receiam “cair” num estado de pobreza, o que é um número altíssimo. É verdade que há mais gregos com idêntico receio, mas este número por si só dá um retrato “existencial” da situação dos portugueses que não eram pobres e agora temem estar a caminho de o serem. Muitos temem, mas muitos já sabem: já têm muitas dívidas, estão em incumprimento nos seus empréstimos, têm ameaças de penhora do fisco sobre os seus bens e o seu salário, por isso o seu mundo só pode piorar. E cada ano que passa é pior, nem sequer é preciso mais qualquer pacote de austeridade, basta os que já existem. Basta o que já perderam de salário, de pensões, de reformas, de apoios sociais. Para a frente é sempre pior a escuridão. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas.

 – Têm medo do desemprego e do custo de vida, estão esmagados por impostos e, se têm emprego, vêem o seu salário sempre a baixar. Já não chega o que ganham. Vão agora começar a viver acima das suas possibilidades durante uns meses, para depois deixarem de ter possibilidades e não poderem cuidar das suas necessidades básicas. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. – Não acreditam em nada, nem em ninguém. Nem nos políticos, nem na política. Quase que já não acreditam na democracia. Não têm qualquer confiança no actual Governo. 85%, repito, 85%, não têm confiança no Governo. Outro número “albanês”, mas bem português, acima de todos os outros na Europa. Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 – Humilhados, maltratados, desprezados. Tratados como ricos indevidos, eles que nunca foram ricos, só quando muito remediados. Culpados de serem velhos e estarem cá a mais a atravancar os jovens que estão a “trabalhar” para eles receberem as pensões e reformas. Culpados de terem emprego, com salários e alguns direitos, e por o terem estarem a impedir os desempregados de aceitarem receber uma miséria e poderem ir para a rua a qualquer altura. Culpados de serem pobres e receberem alguns apoios sociais. Ser pobre significa ser calaceiro e não querer trabalhar. Culpados de serem professores, ou calceteiros, ou enfermeiros, ou trabalhadores de um serviço municipal, ou auxiliares de limpeza, ou técnicos de informática, ou motoristas, ou qualquer outra coisa, se estiverem na função pública. Culpados de serem “piegas”, neo-realistas, protestantes, reivindicadores, sindicalistas, incomodados, desrespeitadores da autoridade, corporativos, não yuppies, estudantes de qualquer curso “sem empregabilidade”, cultores das humanidades em vez da gestão, do marketing, e do “empreendedorismo”. Como ninguém gosta do desprezo, a não ser que seja masoquista, percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 – Cansados de um imenso cansaço, cansados de um desesperante cansaço. Vão para férias, mas não vão ter férias. Podem mergulhar no mar, mas quando se encostam à toalha para secar, a sua cabeça não descansa. (Como é que vou pagar o carro em Setembro? Como é que vou pagar a prestação da casa? Já não posso mais receber aqueles avisos da Autoridade Tributária a explicar por um número infindo de artigos e alíneas que o meu salário vai ser penhorado. Como é que vou sobreviver com a conta bancária confiscada para pagar o IRS? Como é que vou dizer à minha mulher que saio todos os dias de manhã como se fosse para o emprego, mas há um mês que fui despedido? Será que no meu serviço serei passado para a mobilidade especial? Vou ter de mudar de casa, por que não posso pagar a nova renda que o senhorio me pediu. A nossa filha entrou na universidade, mas onde é que vou arranjar o dinheiro para as propinas? Como é que vou de novo abrir o café, quando devo dinheiro a todos os fornecedores? E como vou continuar a ter o meu empregado de sempre na oficina quando ninguém paga nada? Apetece-me fugir. Fugir.) Percebe-se muito bem por que razão o PSD, o CDS e o Presidente não querem ouvir falar de eleições antecipadas. 

 Nota: Usando o último Eurobarómetro e não só.

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4.8.14


O NAVIO FANTASMA: HÁ UM PROBLEMA COM O BES, MAS HÁ UM AINDA MAIOR PROBLEMA COM O MODO COMO FUNCIONAM AS NOSSAS INSTITUIÇÕES E A NOSSA COMUNICAÇÃO SOCIAL (2)

Porém, o mesmo pode ser dito de muitos jornalistas que andaram no último mês a repetir que o GES era "mau" e o BES estava "bom". Quase que faziam ponto de honra de nos "prevenirem" de que era assim, não fosse alguém desconfiado retirar o dinheiro do BES ou despachar acções e obrigações. Já disse várias vezes nos últimos meses que esse não é o papel dos jornalistas. Mesmo que a informação viesse da boca do Governador, da Ministra das Finanças, do Primeiro-Ministro (e algumas  vieram), os jornalistas não são "passadores" de "informação", mas sim verificadores de informação. Podem colocar o que dizem na boca de "fontes próximas" do Banco de Portugal e assim informarem sem validarem o que outros diziam, não podem é afirmar, como afirmaram, que o GES era "mau" e o BES estava solidíssimo, a não ser que isso fosse resultado do seu próprio  trabalho de investigação. O problema é que a promiscuidade com o poder e as suas "fontes" e muitas vezes uma concordância profunda, ideológica ou "técnica", dá nesta dificuldade de distanciação.

Por isso, quando há uma crise séria, todas as instituições falham. O Governo, o Banco de Portugal, a justiça e a comunicação social. E agora, por favor, não comecem na mesma a garantir-nos que "não há dinheiro público envolvido", a solução é a melhor para "os portugueses", "engenhosa", mesmo que experimental, e com o tom populista de que os "donos" do Banco vão "perder tudo", etc., etc É que isto é só o principio, ainda há muita coisa por saber, vai haver processos judiciais, pouco se sabe sobre o papel que outros bancos vão assumir, etc., etc. Por favor, não recomecem na mesma a repetir o que o poder diz, porque nesse caso vão ir outra vez contra a parede. 

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O NAVIO FANTASMA: HÁ UM PROBLEMA COM O BES, MAS HÁ UM AINDA MAIOR PROBLEMA COM O MODO COMO FUNCIONAM AS NOSSAS INSTITUIÇÕES E A NOSSA COMUNICAÇÃO SOCIAL (1)

Quem deu as "informações" relevantes sobre a "solução" do BES foi um comentador televisivo, Marques Mendes. Fê-lo com um intróito destinado a justificar o Governador do Banco de Portugal. As "informações" foram dadas num contexto destinado a proteger o Governador das críticas que se avolumavam, e foi com esse objectivo que foram "passadas" a Marques Mendes. Mas, Marques Mendes não é jornalista e, por isso, divulgou o que sabia no contexto em que foi "informado". Prestou-se a um papel de legitimação que, infelizmente, é muito comum em certo tipo de comentário político.  Mas, Marques Mendes não é jornalista e, por isso, o que diz pode passar por ser "opinião",  que é livre  e criticável, como todas as opiniões.

Claro que o facto de ser Marques Mendes a anunciar uma medida desta relevância no sábado, ainda antes de serem assinados os documentos legais que o Governo só aprovou no domingo e do anúncio "em segunda mão" do Governador, lança uma luz muito sinistra sobre o modo como funcionam as nossas instituições, como funciona o Banco de Portugal, que nos últimos momentos críticos parece um passador (e pode ter contribuído para inside trading, em operações bolsísticas não esclarecidas), e o Governo que sempre esteve muito mais dentro do processo do BES do que tem vindo a publicitar. Ninguém liga, tão habitual isto é, mas é aquilo que antes se chamava "falta de sentido de Estado". Ou pior.



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O NAVIO FANTASMA : TUDO FEITO EM CIMA DO JOELHO

Do nome do banco, já registado por outros, à coisa, tudo remendado, apressado, mal feito, enganador, enganador, enganador. 

As únicas preocupações evidentes, foram a auto-justificação do Governador do Banco de Portugal e a elaboração de uma "narrativa" dolosa destinada a impedir que se diga o que aconteceu: o BES faliu e foi nacionalizado. Vai ser "limpo" com o nosso dinheiro e depois vendido barato. Alguém vai lucrar e muito. Tudo o resto é propaganda.

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3.8.14


PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema: Al Nakba.

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27.7.14




CARTAS PORTUGUESAS A LUDWIG PAN, GEÓLOGO E AGRIMENSOR NA AUSTRÁLIA

(As duas primeiras aqui, a terceira aqui.)


4º CARTA A LUDWIG PAN, PESQUISADOR DE OURO NOS ANTÍPODAS, SOBRE UM MANTRA BUDISTA 

 Meu caro Pan 

Desejo-te os bens simples do prospector: água fresca, café, lume, toalhinhas refrescantes e corned beef de boa qualidade. Ou estou a ver muitos filmes do Faroeste (sim, a palavra existe mesmo…) e acho que essa longínqua Austrália é igual? Que seja. 

 Nós por cá, todos bem. 

Já ouvi isto nalgum lado, quando o “nós” e “por cá” não estavam nada bem. E lembro-me do “banco”. Todos os dias as nossas altas autoridades nos dizem que o “banco” está bem, é porque está tudo bem. Parece um mantra. Om mani padme hum. Om mani padme hum. Om mani padme hum. Om mani padme hum. Chega para mantra, mas cá é entoada muito mais vezes. Até o presidente, que diz que não faz declarações no estrangeiro sobre política nacional, lá disse Om mani padme hum na Coreia ou em Timor. Espanto dos budistas lá por longe. 

Por favor não leias esta carta alto aos teus aborígenes. Om mani padme hum. O “banco” está bem, embora as “empresas” dos Espírito Santo essas sim é que estão muito mal. Om mani padme hum. Não sei muito bem onde colocam a muralha de aço, mas uma coisa parece “não contaminar” a outra. Eles são os mesmos, e presumo que sim, donos do mesmo, ou parcialmente, numa grande parte, donos do mesmo. Mas o “mesmo” tem uma parte que está má e outra que está boa, mas não comunicam. Pode ser. Om mani padme hum. E como tu, presumo, não tens “papel” do banco, nem deste nem de nenhum outro, podes estar descansado nos antípodas, que estás “bem”, não estás “exposto” a não ser ao firmamento e ao pó. 

Eu penso que é muito útil que aprendas os costumes aborígenes e que me dês um curso acelerado. Por exemplo: dizes-me tu que na Austrália, por onde andas, a da selva obscura, embora sem selva, parece que é proibido falar com as sogras. Parece que os aborígenes quando têm a senhora sogra ao lado, não se lhe dirigem. O diálogo deve ser interessante, um aborígene pede à filha da sogra que lhe diga, “chegue-me esse lagarto roti”. E a filha diz à mãe “Amarynah (Chuva) , minha mãe, dá a este Banjora (coala macho) meu marido, o lagarto que está dependurado no espeto”. 

Os povos sábios resolvem assim os seus problemas de relacionamento e eu devia fazer coisa semelhante, mas não tenho sogra. Aliás, Portugal devia fazer uma coisa parecida. Tomo por certo que a sogra por cá é o Capital, o que já foi de Marx e agora vem no livro de Piketty que não li. O do Piketty. E a filha é o nosso distinto governo, dois em um, mas muito juntinhos. O pobre marido são os portugueses. Na verdade, foram os portugueses que casaram com a filha dela, votando no PSD e no CDS. 

Por cá, caro Pan, os casamentos duram quatro anos, embora a sogra tenha a tendência para ser a mesma. Agora pelos vistos querem descasar e casar com outra, embora a sogra não deixe. Obriga-os ao “consenso”, a fazer um novo acordo pré-nupcial chamado “acordo de regime”, tudo coisas destinadas a impedir mudar de filha, o mais provável, e a mudar de sogra, o altamente improvável. Então os portugueses manifestam-se, protestam, dão “sinais inequívocos”, mas como a filha está agarrada ao casamento nada diz á sogra e os portugueses, como não podem falar directamente com a sogra, ficam a falar sozinhos. 

Verdade seja dita que há uma maneira pouco recomendável e em desuso de falar directamente com a sogra, chama-se revolução, mas é rara e muito complicada. De facto, os teus aborígenes têm razão: falar directamente com a sogra é o fim da paz familiar e o tumulto social. Assim, a gente atura a filha, mas cada dia que passa o divórcio é mais provável, embora haja uma fila de filhas da mesma sogra à espera de vez. Até porque a sogra, em colaboração com a filha, nos rouba muito e nos mente com quantos dentes tem e tem muitas fiadas. 

 Nós por cá todos bem. 

Uma desgraça. Verdade seja, lembrei-me agora, tu também trabalhas para a sogra, procurando o teu ouro e eu também, escrevendo lendas urbanas. Mas que se há-de fazer, é a vida. Om mani padme hum. Mas o “banco” está bem. 

Um abraço do teu parceiro do país onde tudo está sempre bem.

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PONTO / CONTRAPONTO
  aos domingos às 20 horas na SICN.

  Até o retorno do  caos do futebol lhe alterar mais uma vez o horário.

Tema:


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© José Pacheco Pereira
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